Escola da Vó Elza neto alfabetizado
Ravi estava ansioso. Era início de janeiro de 2020. Ele havia completado seis anos e seria alfabetizado. Ledo engano. A pandemia se instalou e as aulas foram suspensas. Chegou julho e as aulas on-line começaram. E nada de letras ou números. Bem, a história da pandemia todo mundo sabe. O ano acabou...
A vovó já não aguentava mais o tempo passando e resolveu listar o material que possuía em casa, durante o isolamento e decidiu: - Vou alfabetizar Ravi. Profetizou.
Acordou dias e horários com a mãe e, pimba! Em primeiro de fevereiro de 2021 foram iniciadas as aulas ‘tete a tete’, com cem minutos de duração ou duas horas aula, duas vezes por semana.
Com um lápis, algumas folhas de caderno, doze lápis de cores, um livro infantil de contos africanos (SILVA, Avani Souza- 2020) e um pedaço de papelão, os trabalhos começaram. Uma lindeza de se ver. Alfabeto escrito na horizontal, em letras bastão maiúsculas, fixado à frente da mesa; aluno e professora sentados lado a lado e záz... bem vindo ao mundo mágico das letras e nomes das coisas...
Foram seis encontros porque houve o intervalo para o bailinho de carnaval na ’Escola Vó Elza’ e dia de excursão ao rio com direito a pic-nic com a família.
Nas aulas internas e presenciais, Ravi escutou muito atento a leitura de contos africanos dos cinco países de língua portuguesa: Angola; Cabo Verde; Guiné Bissau; Moçambique; São Tomé e Príncipe. Recontou oralmente; recontou em desenho; destacou palavras escutadas; escreveu as palavras; reconheceu personagens; coloriu e muito mais.
As aulas incluíram estudo da sociedade e da natureza; matemática; família e outros que tais. Tudo feito com amor e seguido com muita curiosidade e atenção. Ravi não cabia em si a cada descoberta e demonstrava o quanto estava pronto para assumir o protagonismo do novo ‘mundo’ alfaletrado.
E assim no dia vinte e seis de fevereiro, ao ser formalmente avaliado com texto ainda não conhecido, ele leu de carreirinha, acompanhando com o dedinho indicador e até se surpreendeu quando leu ‘pelaí’, numa tirinha de Maurício de Souza da Turma da Mônica, e reconheceu que assim está escrito por tratar-se de fala da personagem Cebolinha, que não pronuncia a letra R. Uau! A plateia vibrou e Ravi seguiu feliz com seu presente de novo leitor da família De Sordi Gregório Ramos, uma revista em quadrinhos, da Turma da Mônica.
E a professora/avó? Esta que vos fala além de muito feliz nesse período de tantas perdas e tristeza, segue a vida tendo sua fé e esperança na EDUCAÇÃO, como emancipadora e geradora de autonomia confirmadas.
A Escola da Vó Elza deu férias a ambos, mas por tempo determinado. Novos projetos serão executados, com certeza, afinal a área da educação é a única neste mundo capitalista em que o idoso tem espaço garantido por suas experiências. Aos 61 (sessenta e um) anos, tenho o orgulho de afirmar: Eu alfabetizei o meu neto!
A autora Elza Ramos é Mulher de Axé, publicitária, pedagoga e iyalorixá